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OBSERVATÓRIO INTERNACIONAL: Líbano

Explosão em porto de Beirute agrava situação já delicada do Líbano. Entenda os desdobramentos do desastre e as crises pelas quais passa o país.

Beirute após explosão em 04/08/2020. Foto: Mohamed Azakir/Reuters

A explosão

4 de agosto, Beirute, capital do Líbano. Uma forte explosão foi registrada no porto da cidade, causando ampla destruição. As imagens do evento viralizaram rapidamente por toda a internet, e tomou todos os noticiários.


Até o momento da publicação desta matéria, não haviam confirmações oficiais acerca das causas do desastre, o qual segue sob investigação das autoridades. Contudo, suspeita-se que a tragédia tenha sido provocada pelas toneladas de nitrato de amônia, substância altamente inflamável, que encontravam-se armazenadas no porto de Beirute há seis anos.


A tragédia, que resultou em milhares de feridos, já registra mais de 150 vítimas fatais e deixou os hospitais locais em situação crítica. Centenas de pessoas encontram-se desabrigadas e há grande preocupação com estoque de comida disponível.


Diversos países ao redor do mundo se movimentaram no intuito de fornecer auxílio ao Líbano. Todavia, é importante entender que, muito além disso, o episódio colocou o Líbano novamente sob os olhos da comunidade internacional, reacendendo discussões sobre os diversos problemas políticos, econômicos e sociais que já enfrenta.


Suporte Internacional

Com a tragédia, diversos países manifestaram intenção de ajudar o Líbano. Veja como alguns deles se posicionaram, até então:

  • Brasil: o Presidente Jair Bolsonaro anunciou que pretende enviar missão de ajuda ao Líbano, incluindo medicamentos, alimentos e ajuda técnica para investigação da explosão. O ex-presidente brasileiro Michel Temer, de descendência libanesa, aceitou convite feito pela Presidência e será enviado especial na missão.

  • Alemanha: busca o envio de um time de resgate com 47 pessoas e doação de 1 milhão de euros através da Cruz Vermelha alemã.

  • França: disponibilizou 6 toneladas de equipamentos de saúde e 10 médicos de emergência. O presidente Emmanuel Macron foi presencialmente a Beirute oferecer suporte.

  • Irã: pretende enviar médicos, 9 toneladas de alimentos e promover a criação de um hospital de campanha.

  • Tunísia: busca o envio de 2 aviões de alimentos e suprimentos médicos. O presidente Kaïs Saïed afirmou que até 100 libaneses feridos poderiam ser tratados na Tunísia.

  • Catar: quer promover a criação de 2 hospitais de campanha com 500 leitos cada, além do envio de 4 voos com ajuda médica (incluindo respiradores).

  • Reino Unido: oferecimento de pacote de ajuda de 6,6 milhões de dólares, além de suporte médico para auxílio em busca e resgaste.

  • Chipre: deseja enviar 2 helicópteros e uma equipe de resgate com 10 pessoas e 8 cães. Ademais, providencia o envio de um avião com suprimentos médicos, também destinado à repatriação de qualquer cidadão do Chipre que queira retornar.

Crise política

A trágica explosão ocorreu em um país já abalado por uma forte crise política e social.

De acordo com o relatório submetido pela Human Right’s Watch para ONU, as autoridades libanesas estão falhando ao lidar com a aguda crise econômica e política que está colocando em risco os direitos básicos dos cidadãos - estes enfrentam cortes diários de energia, falta de água potável e saúde pública limitada.


A partir de outubro de 2019, a população começou uma série de protestos, a chamada “Revolução de Outubro”, em resposta ao plano de governo para criação de impostos sobre gasolina, tabaco e chamadas VoIP em aplicativos como o WhatsApp.

Manifestação. Foto: Jamal Elshayyal/Twitter.

Rapidamente, a indignação se expandiu contra as altas taxas de desemprego (25% antes de começar a pandemia), economia estagnada, desigualdade social e a corrupção no setor público, - atualmente ocupa o 137º lugar entre 180 países (180 sendo o pior) no Índice de Percepção de Corrupção de 2019 da Transparência Internacional.


Apesar do clamor por reforma política há mais de 200 dias, a situação no país continua delicada, um dos maiores obstáculos da mudança é a organização do próprio sistema de sectarismo político, onde o poder é constitucionalmente dividido entre grupos religiosos diferentes, sendo os mais notáveis os cristãos maronitas (do Presidente); muçulmanos xiitas (do Chefe do Parlamento) e muçulmanos sunitas (do Primeiro Ministro à época da explosão), que privilegiam os interesses das comunidades religiosas que representam, oferecendo incentivos financeiros (tanto legais, como ilegais).

Manifestação. Reprodução: El Comercio/EFE

Atualmente, apesar do lockdown durante a pandemia, as manifestações continuam com alta repressão do governo.


Em consequência à explosão ocorrida em 04 de agosto, a crise política se agrava com a renúncia do Primeiro Ministro Hassan Diab. Além dele, outros quatro ministros e nove deputados renunciaram em resposta à indignação da população, que culpa o governo pelo incidente, em curto período de tempo. Sob os olhos de toda a comunidade internacional, a crise política no Líbano parece longe de acabar, principalmente com a gravidade da recente tragédia.


Crise de refugiados

O governo do Líbano estima que existam mais de 1,5 milhões de refugiados originários apenas do país vizinho, a Síria.


Além disso, existem no país centenas de milhares de refugiados de origem iraquiana, sudanesa e palestina, tornando o Líbano o país com mais refugiados per capita do mundo - estima-se que 1 em cada 6 habitantes seja refugiado.

Campo de refugiados no Líbano. Foto: Jamal Saidi/Reuters.

Com a pandemia do Covid-19, chamou-se atenção à precariedade da situação dos imigrantes no país, que na maioria das vezes não estavam registrados para receber cuidados de saúde.


O ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) informou em março deste ano, através da porta-voz libanesa Lisa Abou Khaled, que estava desenvolvendo planos de contingência para a propagação da doença junto ao governo e outras agências da ONU no país.


Missão de paz interina da ONU

A Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL) conta com 12 mil militares de 37 países. Foi criada pelo Conselho de Segurança em março de 1978 para confirmar a retirada israelense do Líbano, restaurar a paz e a segurança internacionais e ajudar o governo libanês a restaurar sua autoridade efetiva na área.


O mandato teve de ser ajustado duas vezes, devido aos desenvolvimentos em 1982 e 2000.

Infográfico em Inglês: United Nations Peacekeeping.

Em julho/agosto de 2006 houve uma crise relacionada ao conflito precipitado pelo ataque do Hezbollah na fronteira com Israel. Sendo assim, o Conselho reforçou a UNIFIL e decidiu que, além do mandato original, iria, entre outras coisas, monitorar a cessação das hostilidades; acompanhar e apoiar as forças armadas libanesas em seu desdobramento em todo o sul do Líbano; e estender sua assistência para ajudar a garantir o acesso humanitário às populações civis e o retorno voluntário e seguro das pessoas deslocadas.


Redação por: Arthur Carvalhal e Nanny Santana.

REFERÊNCIAS

BBC. Lebanon: Why the country is in crisis. Londres, 2020. Disponível em: <https://www. bbc.com/news/world-middle-east-53390108>. Acesso em: 09 de Agosto de 2020.

FOLHA VITÓRIA. Procuradoria-Geral do Líbano ouve responsáveis pela segurança; explosão segue em investigação. 2020. Disponível em: <https://www.folhavitoria.com.br /geral/noticia/08/2020/procuradoria-geral-do-libano-ouve-responsaveis-pela-seguran ca-explosao-segue-em-investigacao>. Acesso em: 10 de Agosto de 2020.

HRW. Lebanon: Failure to Address Economic, Political Crisis. Beirut, 2020. Disponível em: <https://www.hrw.org/news/2020/08/03/lebanon-failure-address-economic-politi cal -crisis>. Acesso em: 09 de Agosto de 2020.

LE MONDE. Le premier ministre libanais, Hassan Diab, annonce la démission de son gouvernement. Paris, 2020. Disponível em: <https://www.lemonde.fr/international /article/2020/08/10/le-premier-ministre-libanais-hassan-diab-annonce-la-demission-d e-son-go uvernement_6048624_3210.html>. Acesso em: 10 de Agosto de 2020.

OUTRAS MÍDIAS. O covid-19 ameaça os campos de refugiados. 2020. Disponível em: <ht tps://outraspalavras.net/outrasmidias/o-covid-19-ameaca-os-campos-de-refugiados/>. Acesso em: 09 de Agosto de 2020.

UNHCR. Fact Sheet: Lebanon. 2020. Disponível em: <https://reporting.unhcr.org/s ites/default/files/UNHCR%20Lebanon%20Fact%20Sheet%20-%20January%202020.pdf# _ga=2.211248151.30425842.1596981832-2092930516.1596981832>. Acesso em: 09 de Agosto de 2020.

UN PEACEKEEPING. Unifil. 2020. Disponível em: <https://peacekeeping.un.org/es/ mission/unifil>. Acesso em: 09 de Agosto de 2020.

UOL. Explosão em Beirute: número de mortos sobe para 157; 5.000 ficaram feridos. São Paulo, 2020. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/08/06/explosao-em-beirute-mortos-chegam-a-137-5000-ficaram-ferido s.html>. Acesso em: 09 de Agosto de 2020.

WORLD ECONOMIC FORUM. This is how countries around the world say they'll help Lebanon. 2020. Disponível em: <https://www.instagram.com/tv/CDjgCEwI42K/?igshid =1i59 hdj9nwg7u>. Acesso em: 09 de Agosto de 2020.

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