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A célebre história do diplomata Joaquim Nabuco

No momento atual, onde o Brasil enfrenta uma crise profunda que se espalha pela política, pela economia e atinge a sociedade civil, obrigando-a a refletir sobre fantasmas do passado ainda não superados, como racismo, igualdade de gênero e desigualdades sociais, o relato de Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo (1849-1910) em Minha Formação (disponível online aqui) é, a um só tempo, fonte de inspiração e de espanto.


A inspiração decorre do fato de tratar-se da autobiografia de um dos mais importantes políticos brasileiros, que se dedicou à política compreendendo-a como algo que se encontrava acima do partidarismo.


Descrito por Gilberto Freyre, no prefácio de Minha Formação como “o primeiro homem público brasileiro a descobrir-se com a própria mão de grande escritor; e em autobiografia tão psicológica como sociologicamente valiosa, além de notável pela sua qualidade literária”, Nabuco nasceu em uma família nobre, com tradição política, mas teve a sua infância marcada pelo afeto com os escravos, o que considerou ser determinante para a causa da sua vida: o abolicionismo.


Formado em Direito pela Faculdade do Recife e tendo atuado em júris na defesa de escravos, o autor relata a inquietação que lhe afligia desde cedo: Nabuco carregava em si uma preocupação que o impulsionava em direção à Política e, simultaneamente, o afastava dela - a escravidão.


Na luta contra a escravidão, Nabuco escancarava os efeitos deletérios que ela causava sobre vários aspectos: a desvalorização do trabalho, o comprometimento da indústria, o fortalecimento do patrimonialismo, a negação do pluralismo e, por conseguinte, da cidadania.


Em todos os espaços que ocupou (na tribuna, em conferências que participou e nos artigos publicados na imprensa), Nabuco defendeu a abolição da escravidão e a efetiva integração do ex-escravo à sociedade e ao mercado de trabalho, rejeitando a ideia de uma abolição meramente formal. Na defesa da abolição, Nabuco chegou a ir ao Vaticano para se reunir com o Papa Leão XIII a quem pediu uma manifestação de apoio à causa, episódio também relatado em Minha Formação.


Também neste livro Nabuco revela as principais fontes para formação das suas convicções: o livro A Constituição inglesa, de Walter Bagehot, e a sua infância na fazenda, narrada no capítulo mais famoso da obra (Massangana). A Bagehot, Nabuco tributa sua fixação monárquica inalterável, afirmando que esta influência o acompanhou em toda a sua atuação, exceto na Abolição. Esta, por sua vez, e fruto do segundo pilar: foi a infância, marcada pelo convívio com escravos, que incutiu no autor o sentimento terno para com os escravos que o rodeavam.


Além de jurista, político, escritor, jornalista e reconhecido intelectual, Nabuco também foi diplomata.


Tendo iniciado a sua carreira diplomática em Washington, Nabuco relata em Minha Formação detalhes da vida política dos Estados Unidos e, devido à vasta vivência do autor na Europa, os confronta constantemente com os costumes europeus. Além disso, Nabuco chegou a ocupar o cargo de Chefe de Missão em Londres e Embaixador em Washington, mas foi preterido por Rui Barbosa na função de representante do Brasil na famosa Conferência da Paz de Haia (1907).


Ao relatar alguns episódios da sua vida diplomática, Nabuco desabafa:

Não posso negar que sofri o magnetismo da realeza, da aristocracia, da fortuna, da beleza, como senti o da inteligência e o da glória; felizmente, porém, nunca os senti sem a reação correspondente; não os senti mesmo, perdendo de todo a consciência de alguma coisa superior, o sofrimento humano, e foi graças a isso que não fiz mais do que passar pela sociedade que me fascinava e troquei a vida diplomática pela advocacia dos escravos.

Minha Formação é, ao mesmo tempo, a autobiografia de um grande brasileiro onde a história do personagem e do país se confundem, de modo que, ao contar sua história, Nabuco revela também um pouco dos fatos que levaram à construção da nossa identidade nacional – inclusive, de algumas mazelas ainda presentes. O espanto na leitura da obra surge da constatação de que, ao confrontarmos as discussões atuais sobre racismo e desigualdade social, com os ideais defendidos por Nabuco, verificamos a sabedoria das ideias defendidas há mais de um século, dotadas de um humanismo e solidariedade que não pode ser alcançado pela maioria de nós, mesmo após mais de 100 anos.

Redação por: Aléssia Bertuleza

Referências


AMORIM, Celso. As duas vidas de Joaquim Nabuco: o reformador e o diplomata. Brasília: FUNAG, 2010. Disponível em: <http://funag.gov.br/biblioteca/download/898-Duas_Vidas_de_Joaquim_Nabuco_As.pdf >


CARDOSO, Fernando Henrique. Pensadores que inventaram o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

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